As dificuldades do Busking

Em abril de 2016 me mudei para Lisboa cheio de ideias aventureiras na cabeça. Para começar, cheguei aqui indo para o meio da estrada na Espanha e pedindo carona. Tinha acabado de sair de um relacionamento e queria me jogar de corpo e alma às aventuras que me aguardavam mundo a fora. Uma das ideias que apareciam muito insistentemente na minha cabeça era o busking. Ou seja, tocar na rua e receber umas moedas em troca.

Logo na primeira semana em Lisboa, fiz meu primeiro busking e os obstáculos já vieram de pontapé no meu peito: muito calor, eu suava muito, muito barulho, tinha que forçar muito a voz pra as pessoas me escutarem, tinha que tocar o violão bem forte e as sutilezas quase não eram ouvidas, etc. Ainda assim, eu continuei fazendo porque eu tinha prazer em fazê-lo. A primeira impossibilidade apareceu quando eu comecei a trabalhar a sério num restaurante de fado, e meus horários me deixavam bastante limitado. Nesse meio tempo, conheci meu parceiro de busking, Oliver Cañete, e de vez em nunca conseguíamos marcar algo.

Nós insistíamos no busking porque nos dava prazer e sempre enfrentávamos as implicações financeiras. Ao contrário do que se pode pensar, ter o busking como parte de uma rotina é muito mais difícil do que parece. A ideia de ganhar dinheiro fazendo o que gosta esconde todas as dificuldades que estão incluídas nessa decisão. Enquanto meu parceiro Oliver continuou com o busking, adquirindo mais equipamentos e acessórios para aumentar a qualidade das sessions e diminuir o desgaste, eu tive que me focar em coisas como mestrado e trabalho.

Isto tudo é para dizer que o busking, além da vertente “prazer”, também tem consigo a vertente “logística”. Se alguém não está preparado para incluir o busking em sua rotina, é um erro pensar que trata-se de uma tarefa fácil que dispensa grandes esforços. Os meus colegas de trabalho me dizem “se eu soubesse tocar, eu só ficava indo pra a rua e ganhando dinheiro fácil”. Eu gostaria muito que eles soubessem tocar só para entenderem a besteira que estão dizendo.

Há um tempo atrás, eu decidi parar com o busking por um tempo numa das minhas brainstorms filosóficas. Desde pequeno eu sempre fui contra quem usa a música como um mero instrumento para ganhar dinheiro, e a partir do momento que eu parei de sentir prazer no busking, e senti que eu estava investindo muito na logística visando, sobretudo, no dinheiro, eu pensei “eu to me tornando exatamente o que eu sou contra”. Quando esse pensamento susurrou na minha mente, eu disse “é isso, vou parar por tempo indeterminado”. Porque pensando bem, se for para se safar financeiramente, quantas pessoas não sabem tocar nada, e conseguem se virar? Então eu também posso. Comecei a fazer mais horários no meu trabalho, e deixei a música fora disso.

Como se não bastasse, a polícia municipal tem dado pouco sossego a alguns músicos que tocam tarde da noite, sobretudo com amplificador. Como o melhor horário para tocar é durante a noite, pela quantidade de pessoas na rua, a solução é tocar mais cedo para menos pessoas, e concorrendo com mais músicos de rua. O risco dessa brincadeira é a perda dos equipamentos.

Mas não se assuste, eu conheço pessoas que fazem a vida com dinheiro do busking. Aqui em Lisboa isso é bem possível. Lisboa tem uma cultura muito inspiradora de arte independente e aqui há muito espaço para artistas desse tipo. Meu trabalho, como mais um músico independente, é alertar as dificuldades para que ninguém precise quebrar a cara e perder tempo. Ao mesmo tempo, incentivo todos a se jogar nesse mundo e desfrutar da nossa liberdade de se expressar através da música e qualquer outro tipo de arte. Um grande abraço!

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Cássio SáAs dificuldades do Busking