Do vinyl ao streaming: O consumo da música como instrumento de aproximação e diferenciação de classes sociais

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A intensificação das trocas comerciais e culturais entre povos de diferentes partes do mundo se manifesta ativamente em padrões atuais de consumo, bem como suas implicações sociais (Bran, 2015:8). Neste estado da arte, discutimos a respeito do consumo da música como um fenômeno social sob o ponto de vista de aproximação e diferenciação de classes sociais.

Ao longo da história, a indústria fonográfica sofreu constantes transformações, alavancadas, principalmente, pelo avanço da tecnologia e o crescimento do registro e reprodução digitais, sobrepondo-se ao analógico. A forma de se consumir música se deu de várias maneiras, desde o disco de vinyl até os serviços de streaming.

A popularização do acesso à música foi reflexo de fenômenos sociais, como a reprodução ilegal de CDs e os websites que disponibilizavam música grátis para download. A partir do momento em que a música tornou-se acessível para todos, independente da sua classe ou estrato social, notou-se a presença de um movimento contrário a esta tendência. Procuramos, aqui, evidenciar a criação dos serviços de streaming como movimento de diferenciação social dos consumidores em oposição ao fácil acesso à música promovido pelos meios digitais.

Recorte histórico

O vinyl surgiu em sua forma padrão em 1948 e nas décadas seguintes, foi o principal meio de consumo de música (Bartmanski & Woodward, 2015). No entanto, a reprodução do registro musical não podia ser realizado em qualquer ocasião, levando em conta as limitações tecnológicas dos aparelhos de reprodução da época. Bartmanski e Woodward (2015) apontam que o vinyl sofreu um declínio nos anos 1980, sendo substituído pelo CD – do inglês compact disc (disco compacto). Foi uma grande inovação por possuir uma sonoridade sem ruídos e chiados e permitir cerca de setenta minutos de música num disco de doze centímetros de diâmetro (Gomes, Corrêa & Pessoa, 2016).

Apesar de toda a praticidade técnica, nem todos tinham acesso à música, visto que o preço dos CDs não permitia que todos os estratos sociais tivessem condições de consumí-los. Um estudo realizado por Corrêa, Pessoa e Gomes (2016) mostrou, através de entrevistas, que os consumidores acreditam que há preços abusivos para alguns CDs. Desta forma, o consumo de CDs não fazia, inicialmente, parte do habitus das classes mais baixas. Diante destas limitações, notou-se, no fim do século XX, o crescimento do consumo ilegal da música. Este tipo de consumo foi possível pelo fato de que o CD permitia que qualquer pessoa “copiasse” músicas e as registrasse neste objeto, podendo vendê-lo por um custo muito baixo.

Gomes, Corrêa & Pessoa (2016) argumentam que a partir deste momento, a indústria fonográfica começou a sentir um desconforto, reforçando a afirmação ao citar Borges (2011), que diz que os consumidores ganharam mais liberdade, pois antes eram forçados a ouvir o que indústria os impunha, fato que mudou com a criação das fitas K7 e foi impulsionado com os CDs, já que estes possibilitaram a gravação caseira.

A partir dos anos 1990, o vinyl parecia ter desaparecido das práticas de consumo musical (Magaudda, 2011:28). Assim, o início do século XXI caracterizou-se pela expansão da internet e o compartilhamento de músicas no ambiente online. Desta vez, era possível ter acesso aos conteúdos musicais através de poucos cliques, sem precisar pagar pelos mesmos. Em 2000, o serviço online Napster lançou um software que permite que pessoas troquem música através da Internet com facilidade e gratuitamente (Kover, 2000). Para ilustrar este cenário, o estudo de Corrêa, Pessoa e Gomes (2016) faz referência a uma pessoa entrevistada, que afirma que utiliza comunidades online de fãs como um ambiente no qual pode-se compartilhar arquivos de música.

Diante desta conjuntura, até os estratos sociais mais baixos tinham acesso à música através do consumo ilegal, seja online ou pela compra de CDs que continham as músicas disponibilizadas ilegalmente. Por conseguinte, o consumo da música se popularizou e foi incorporado no habitus das classes baixas. Anteriormente, o acesso à música raramente acontecia dentro do ambiente online, mas o crescimento da internet modificou este cenário (Arancibia-Carvajal, Leguina & Widdop, 2015). Ainda assim, a migração do acesso à música para o mundo digital não exclui a materialidade e não implica em um papel social menos relevante para objetos materiais dentro do processo de consumo (Magaudda, 2011:16).

Isto posto, a forma com a qual as pessoas consumiam a música foi ainda mais aprimorada com a criação do iPod pela empresa norte-americana Apple. Trata-se de um dispositivo que pode armazenar 1,000 músicas (Gill, 2001). Tamanha facilidade fez com que o compartilhamento de músicas online tomasse uma proporção cada vez maior, bem como o desenvolvimento dos dispositivos de armazenamento e reprodução dos arquivos de áudio. Segundo, Magaudda (2011), tais dispositivos se faziam presentes antes do crescimento do download, mas, com o tempo, o modo com o qual as pessoas apropriavam tais objetos e tecnologias adquiriu ainda mais relevância no processo de consumo da música.

Neste cenário, a comercialização de produtos contrafeitos tornou o acesso à música ainda mais popularizado. Tais produtos incluíam a identidade visual de uma marca registrada sem ter autorização legal para tal (Rojek, 2016), além de possuir funções técnicas semelhantes e um preço mais acessível. Desta forma, pessoas das mais variadas classes e estratos sociais podiam consumir a música da mesma forma, havendo, assim uma aproximação das classes sociais em seu habitus. Contudo, esta aproximação teve um freio: a criação dos serviços de streaming.

No dia 22 de junho de 2009, o site inglês Evening Standard publicou uma matéria que dizia que “um novo serviço de assinatura de música online poderia resultar o fim dos consumidores comprando CDs. Spotify, o website de streaming musical que permite usuários ouvir faixas instantaneamente” (Prigg, 2009). A criação do Spotify deu início à criação em massa de serviços de streaming (Bandcamp, Deezer, Apple Music, etc), que cobravam um valor mensal para as pessoas ouvirem músicas disponibilizadas por eles no ambiente online. O streaming possibilita a reprodução de uma música através da internet sem que seja preciso fazer o download da mesma, e tudo isto de forma legal, pois os autores das músicas recebem dinheiro para cada execução ou download de suas obras.

Implicações para a Sociologia do Consumo

Ao analisar o recorte histórico do consumo da música, notamos que a tendência sempre foi aumentar a facilidade do acesso e diminuir os custos do processo, de forma a permitir tal consumo a qualquer estrato social, caracterizando a popularização do mesmo. No entanto, vemos que os serviços de streaming vão na contramão desta tendência ao introduzir um preço mensal para que as músicas sejam ouvidas.

Os anos conseguintes à criação do streaming caracterizaram-se pelo aumento do consumo através deste tipo de serviço e pela queda do consumo de CDs e compra de álbuns digitais. O website português Sapo Mag revelou que, em 2015, os portugueses consumiram mais música através de serviços de streaming e que há uma mudança de comportamento dos portugueses em relação ao consumo de música. Esta mudança de comportamento revela que há, sob o ponto de vista do consumidor, certas vantagens do serviço de streaming em detrimento do download ilegal e das demais formas de consumo.

Pode-se argumentar que uma destas vantagens está relacionada à quantidade de músicas disponíveis. No entanto, os dispositivos disponíveis atualmente no mercado são capazes de armazenar milhares de músicas, que seriam ouvidas de forma gratuita. Assim sendo, as vantagens do streaming vão além das qualidades técnicas do serviço: trata-se de uma diferenciação social. Os serviços de streaming incorporam atribuições sociais e permitem que as pessoas usem a música como objetos sociais (Hagen & Luders, 2016).

Este argumento é reforçado com o ressurgimento do consumo do disco de vinyl. Tornou-se comum que os artistas lancem seus álbuns com versões em vinyl, os quais podem ter um preço de 30–50% a mais do que outros formatos (Bartmanksi & Woodward, 2013:7). Ainda segundo Bartmanski e Woodward, as significações sociais atribuídas ao vinyl nas últimas décadas “possibilitaram o considerável ‘ressurgimento’ no consumo do vinyl”. Assim como o streaming, o valor econômico atribuído ao vinyl converte-se em valor social pela diferenciação de habitus e pela interpretação destes formatos consumíveis como “instrumentos de projeção de identidade” (Bartmanksi & Woodward, 2013:7).

Williams (2006) vê a atribuição de valores sociais à música de duas formas: Primeiro, através da relação entre música e identidade, sendo a música fruto da criação de subculturas bem como consequência das mesmas. Segundo, a experiência de compor ou ouvir música permite que as pessoas sejam capazes de se localizar em formações subculturais específicas.

Portanto, o consumo da música é utilizado para que indivíduos de determinadas classes sociais coloquem a si mesmos em um “lugar” diferenciado e inacessível para alguns. A princípio, o preço a ser pago é a primeira barreira que mantém os estratos sociais mais baixos impossibilitados de ter acesso ao streaming. Outra barreira é a necessidade de possuir um dispositivo com especificações técnicas suficientes para suportar o aplicativo do streaming, no caso de dispositivos móveis, e uma conexão de alta velocidade com a internet. Este afastamento dos habitus das classes sociais são fruto da construção de “gosto legítimo” das classes mais altas para o consumo da música através dos serviços de streaming, criando uma diferenciação em relação à forma com que as classes mais baixas consomem a música.

Conclusões

Ao ponderar a respeito das implicações sociais do consumo música como objeto de consumo que possui um valor social agregado, bem como as ações da indústria fonográfica desde a primeira metade do século XX até os dias atuais, concluímos que a gradual popularização do consumo da música, que provocou a aproximação do habitus das classes sociais, sofreu um freio com a criação dos serviços de streaming. Estes apresentaram tendências contrárias à popularização do consumo da música restringindo estratos sociais mais baixos através de barreiras econômicas inerentes ao serviço e, conjuntamente, promovendo a criação de um “gosto legítimo” atribuído aos seus usuários, os quais, desta forma, se colocam numa posição social diferenciada em relação às pessoas que não podem consumir a música através dos serviços de streaming.
Deixa-se, aqui, um espaço para que futuros estudos sejam desenvolvidos sobre o tema com perspectivas e dimensões que venham a complementá-lo.

Bibliografia

Arancibia-Carvajal, S.; Leguina, A. & Widdop, P. (2015). Musical preferences and technologies: Contemporary material and symbolic distinctions criticized, Journal of Consumer Culture, pp.1-23.

Bartmanski, D. & Woodward, I. (2013). The vinyl: The analogue medium in the age of digital reproduction, Journal of Consumer Culture, volume 15, pp.3-27.

Bran, F. (2015). Globalization of Economy – Premises and Effects, The USV Annals of economics and public administration, volume 15, pp.7-11.

Corrêa, A; Gomes, G. & Pessôa, L. (2016). Consumo de música: um estudo de marketing geracional, Diálogo com a Economia Criativa, volume 1, pp.39-57.

Hagen, A. & Luders, M. (2016). Social streaming – Navigating music as personal and social, The International Journal of Research into New Media Technologies, pp. 1-17.

Kover, A. (2000). NAPSTER: THE HOT IDEA OF THE YEAR, Fortune, volume 142, pp. 129.

Prigg, M. (2009). Website to offer music streaming in CD quality, Evening Standard, Consultado a 12 de janeiro de 2017 de http://www.standard.co.uk/news/website-to-offer-music-streaming-in-cd-quality-6790605.html.

Rojek, C. (2016). Counterfeit Commerce: Relations of Production, Distribution and Exchange, Cultural Sociology, pp.1-16.

Sapo Mag (2016). Consumo de música por streaming aumentou 60% em Portugal, Sapo Mag, Consultado a 12 de janeiro de 2017 de http://mag.sapo.pt/showbiz/artigos/consumo-de-musica-por-streaming-aumentou-60-em-portugal?artigo-completo=sim.

Williams, J. P. (2006). Authentic Identities Straightedge Subculture, Music, and the Internet, Journal of Contemporary Ethnography, volume 35, pp.173-200.

Artigo confeccionado por Cássio Sá em janeiro de 2017 para a cadeira Sociologia do Consumo do Mestrado em Comunicação Social (vertente – Comunicação Estratégica) pela Universidade de Lisboa.

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Cássio SáDo vinyl ao streaming: O consumo da música como instrumento de aproximação e diferenciação de classes sociais