A espiral do silêncio: música x ideologia política

A música sempre foi instrumento de propagação de ideias, isto é inegável. O poder que a mesma tem em mobilizar as pessoas é imensurável. Desde os protestos serenos de Bob Dylan às críticas caricaturadas de Roger Waters, temos inúmeros motivos para concordar que a música está intrinsecamente atrelada à propagação de ideias. Como era de se esperar, muitas vezes estas ideias não estão em sintonia ou, ainda mais, vão de encontro umas com as outras. Como imaginar que o complexo ser humano seria algo diferente disto? Ainda assim, a música está lá fazendo este papel de mensageiro, muitas vezes de alta amplitude.

Isto tudo para falar do momento atual do Brasil. Ideias em conflito estão engolindo as pessoas e a música está indo junto neste barco. O contraditório é zona de perigo. A liberdade de expressão é um risco. Pensar diferente é inaceitável. Uma palavra pode te abduzir para um vortex de solidão ideológica. E por qual motivo eu coloco os músicos numa posição diferenciada neste processo?

Enquanto vejo muitos músicos se posicionando politicamente de um lado, vejo inúmeros talentos escondidos por falta de oportunidades do outro. A mensagem passada por um músico é diferente. Tem um poder diferenciado. E este poder nos impede de enxergar os músicos que são engolidos pelo vortex do contráditório. Estes músicos também gostariam de passar a sua mensagem, mas sabem que isso é perigoso. Ele precisa de outros músicos para ser reconhecido. Ninguém faz nada sozinho, e neste meio não é diferente. Uma letra diferente, e ele está fora, sem chances.

Em 1977, a cientista política Elisabeth Noelle-Neumann escreveu sobre o fenômeno chamado “A espiral do silêncio”. Isto ocorre quando determinado grupo cala-se ante a hegemonia do pensamento contrário ao seu. Muitas vezes este grupo representa a maioria, mas como cala-se diante do contraditório, há a impressão de que são a minoria. Isto deixa algumas pessoas num limbo sem exercer sua liberdade de expressão, pois temem ser excluídas.

Muitos músicos estão experienciando este fenômeno atualmente, vendo seu talento ser atrofiado e jogado para escanteio, enquanto tornou-se mais importante para a maioria dos músicos ter a sua ideologia validada pelos demais. Não é preciso dizer que a música, como um todo, se enfraquece com este processo. Digo isto porque a ideia de tolerância e aceitação do diferente deveria ser uma das bandeiras carregadas por cada uma das nossas notas musicais. Os arranjos não mais importam. As influências musicais de cada canção estão em segundo plano. A qualidade da produção é só um mero detalhe. O que tem valido ultimamente é a ideologia presente na sua letra. Vou além, a música em si não tem tanta importância. O simples fato de se posicionar politicamente pode te trazer para o grupo dos aceitos, ou te afogar no mar da intolerância.

Mas no fim das contas, uma coisa nunca vai mudar: Todos nós amamos a música e temos uma relação especial com ela. Nenhum tipo de ideologia política jamais pode mudar isto. Nós temos um poder que poucos têm: o de inpirar as pessoas. Ao mesmo tempo, temos outro poder igualmente forte: o de calar nossos semelhantes. O medo do contraditório tem feito muitos músicos utilizarem este segundo poder, muito mais do que o primeiro. Será este o caminho correto?

Juntamente com esta reflexão, proponho-vos, meus amigos músicos: deixemos o medo de lado. Inspiremos às pessoas com coisas boas, que farão difença no mundo. Não nos dividamos, aprendamos uns com os outros. Nunca teremos uma sociedade na qual todos pensam igual, isto seria muito perigoso. Por fim, cito mais uma vez Roger Waters: “Juntos, nós ficamos de pé. Divididos nós caímos”.

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Cássio SáA espiral do silêncio: música x ideologia política